Karine Rodrigues

Mantendo a clareza de informações, o profissional pode romper os limites definidos por modelos tradicionais e apostar em formatos que explorem diferentes linguagens, cores e formatos. No entanto, especialistas em RH ainda têm postura cética sobre o uso desse tipo de apresentação, já que há muitos riscos envolvidos: ou ela será muito boa ou será muito ruim. Confira dicas para não errar:

Depois de trabalhar por 12 anos como empregada doméstica na mesma casa, Maria de Nazaré da Silva, 47 anos, teve dificuldades de se recolocar quando a antiga patroa se mudou para a Espanha, em julho do ano passado. Os quatro meses que passou desempregada não foram fáceis. Para aumentar as chances de efetivação, caprichou no currículo: com uma ferramenta on-line, conseguiu fazer um modelo bonito e simples, mas que chama mais atenção do que formatos comuns. Para completar, fez cartazes criativos anunciando serviço de diarista a fim de colocar em quadros de avisos de empresas. A estratégia deu certo! “O currículo me abriu muitas portas. Logo, comecei a ser chamada para várias faxinas”, diz.

Hoje, com a agenda cheia, Nazaré definiu um novo objetivo: daqui para a frente, pretende trabalhar apenas como diarista a fim de ter maior flexibilidade de horários. Ela não conhece ninguém da área que tenha tido a mesma ideia para promover a própria imagem, visto que, normalmente, as contratações são feitas pelo boca a boca. A piauiense é prova, porém, de que é possível inovar no currículo, nem que seja um pouquinho, e, assim, conseguir se destacar em qualquer área. Esse documento é o primeiro passo para conseguir ser chamado para uma entrevista. Diferentemente do que se possa pensar, não deve parecer uma biografia. Trata-se da sua arma para atravessar o funil da seleção, que, acredite, é cruel: em muitos casos, recrutadores vão gastar apenas 30 segundos olhando seu currículo.

Para conseguir prender a atenção, o que mais importa ainda é o conteúdo, que precisa transmitir qualidades profissionais e comportamentais de modo sucinto. No entanto, a forma também pode ajudar a atrair os olhos do selecionador. A diferença entre o remédio e o veneno, porém, é a dose! Currículos diferentões demais, que exijam muito tempo e paciência para serem desvendados, também podem ser negativos. “A linha entre a criatividade e o que não pode cair bem é muito tênue”, alerta Tomás Arregui, diretor de Operações da consultoria Stato. Quem conseguir acertar, porém, deixará boa impressão, como destaca Marcelo Olivieri, diretor da Trend Recruitment: “Currículos fora do padrão demonstram criatividade, iniciativa, perfil arrojado e sem medo de arriscar”. Segundo Olivieri, as empresas valorizam alguém que pensou sobre o empregador e criou algo para chamar a atenção de forma positiva. “Dependendo da área ou da criatividade, pode abrir uma porta.” É preciso usar a ferramenta com parcimônia, lembrando-se de que o principal ainda é o conteúdo.

Tomás Arregui, Diretor de Executive Search da STATO

É o que ensina Rodrigo Henriques, gestor de Estratégias Educacionais do Instituto Fenasbac (Federação Nacional de Associação dos Servidores do Banco Central), especializado em capacitação profissional. “Preocupe-se primeiro com os detalhes básicos, para depois caracterizar o documento criativamente. Nada disso está errado, o problema é que não adianta usar um formato ousado, mas deixar passar erros de ortografia e colocar objetivos genéricos, por exemplo”, orienta. Psicóloga e sócia da Trajeto RH, Angélica Guidoni afirma que o risco de se equivocar tentando criar um modelo inovador é alto, por isso, conhecer a companhia em que quer trabalhar é fundamental. “As empresas têm culturas e padrões. Um currículo diferenciado não é para todos os ramos — é mais indicado talvez para negócios ligados a tecnologia e mídia. Se você conseguir se comunicar de forma mais direta por meio de um canal diferente, pode ser uma boa ideia, mas as formas tradicionais, se benfeitas, ainda são muito fortes”, completa.

Fora do convencional

Mercados criativos, como os de comunicação, tecnologia, publicidade, design e jogos, tendem a ter mais abertura para currículos que fogem do convencional, de acordo com especialistas, porém é preciso ter cuidado para não generalizar e pecar pelo excesso mesmo nesses ramos. Designer de games e programador, Gustavo Guterres, 26, conseguiu encontrar um meio termo. Durante muito tempo, o brasiliense apostou em formatos tradicionais na hora de se candidatar a processos seletivos. Ele resolveu inovar quando criou um modelo simples, mas cheio de referências visuais a projetos desenvolvidos anteriormente: uma mistura de portfólio e currículo, no formato horizontal ou paisagem. Ali, apresenta quem é, qual nível de conhecimento tem na área e o que desenvolveu.

O jovem, que se identifica no currículo como alguém que adora dar ideias, sugestões e fazer piadas, aproveitou para ilustrar no documento o Planta Vida e o Chronolink DX, jogos desenvolvidos por ele. “Acho que isso deixa o currículo mais humano, mostra meu interesse e como eu sempre quis trabalhar com jogos”, conta. A ideia ganhou forma, com uma ajuda da irmã, quando ele tentou uma oportunidade na empresa de desenvolvimento de jogos Glitch Factory, que exigia portfólio dos candidatos. Na época, a vaga já havia sido preenchida, mas o currículo ficou e se tornou o xodó do profissional, pronto para ser usado em novas oportunidades. Hoje, Gustavo é vice-presidente de Tecnologia da Informação da empresa de arquitetura A+55, onde trabalha desde 2016, e programador na Give me Five desde 2014.

Eles viralizaram

Confira histórias de pessoas que apostaram em currículos tão diferentes que acabaram ganhando visibilidade na internet:

Rumo à Netflix?
Diretor de criação e planejamento, Gustavo Chofra, 40 anos, criou um site com interface semelhante à da Netflix para se candidatar a uma vaga na companhia de streaming. No catálogo on-line, séries e filmes serviram de referência para o publicitário, e as sinopses deram lugar a textos cheios de humor que revelavam habilidades profissionais. “Queria muito trabalhar na Netflix, mas decidi não mandar só o currículo porque não funcionaria. Quis chamar atenção para que as pessoas ficassem pensando: temos que contratar esse cara”, relembra o cinéfilo e viciado em cultura pop. Apesar do empenho, Chofra não recebeu nenhum retorno da companhia, mas o portfólio fez sucesso na internet. A visibilidade abriu outras portas, colocando o paulistano em contato com marcas como Heineken e Itaú, além de grandes agências de São Paulo. Atualmente, ele é diretor de criação na Mondo Live, startup de comunicação que idealizou.

Documento engarrafado
Com apenas 17 anos, a estudante Beatriz Carmona apostou na criatividade para se destacar em meio aos 370 candidatos que disputavam uma vaga de jovem aprendiz na Reachlocal Brasil, empresa de marketing digital de Barueri (SP). Para fazer parte da prestadora de serviços à Femsa, fabricante do Sistema Coca-Cola Brasil, Beatriz apostou em uma ideia ousada: estampou o currículo em uma garrafa do refrigerante. O rótulo continha a seguinte mensagem: “Milhares de currículos acabam no lixo. Este vai matar a sua sede”. E funcionou! Em julho do ano passado, a adolescente conseguiu a sonhada vaga.

Minha vida em um gif
Na esperança de conseguir uma vaga de estágio, quando estava no 7° semestre de engenharia civil, a jovem Luiza Messeder, 24, de Belo Horizonte, aproveitou a onda de memes em GIF na internet, em 2016, para divulgar seu currículo. Elaborados por um amigo, as imagens e o texto em movimento contavam, em mensagem direta a empresas, algumas habilidades de Luiza. Entre elas, “criativa”, “batalhadora” e “pau para toda obra”. Apesar da repercussão, a jovem não conseguiu uma vaga na época.

Carreira-sanduíche
Se teve currículo estampado em uma garrafa de Coca-Cola, também teve recheando um hambúrguer — mas um feito de pano. A dona da aposta inusitada é a Mariana Paiva, 32, que tentou uma vaga para caixa ou assistente administrativa em uma hamburgueria em Vitória (ES). Entre o bacon e a carne de tecido, Mariana inseriu as informações profissionais e agradou à lanchonete famosa na cidade pela criatividade e pelo bom humor. O vídeo publicado por um dos proprietários do estabelecimento conquistou cerca de 38 mil visualizações no Facebook.

Virei um boneco
Longe do Brasil, no País de Gales, o designer Andy Morris, 34, transformou o currículo em um boneco de Lego. Na embalagem, o convite “desempacote o seu mais novo funcionário” direciona os recrutadores ao brinquedo que leva um computador e um currículo em mãos. No verso, o espaço que é comumente usado para as instruções do brinquedo é ocupado pelas qualificações e competências de Andy.

Identificação de valores

egundo recrutadores, em setores mais conservadores, como direito e contabilidade, os currículos tradicionais são os mais comuns e funcionam bem. Raquel Santana, 24, é a mais nova advogada da unidade de Brasília do escritório Roberto Caldas, Mauro Menezes & Advogados, empresa original do Rio de Janeiro que se define como empenhada na defesa dos direitos dos cidadãos. Recém-formada em direito, ela apostou num formato clássico, mas fez questão de destacar informações que extrapolam o perfil profissional. “Além de candidata, sou uma pessoa que ocupa um espaço na sociedade. A forma como eu me vejo no mundo e o que eu represento importa”, declara. Entre as quatro páginas do documento, a jovem citou artigos publicados, projetos e eventos organizados. A certificação como “jovem transformadora”, concedida pela Fundação Estudar, não ficou de fora. Mestranda em direito pela Universidade de Brasília (UnB), Raquel aproveitou para elencar também um curso de línguas feito na França, oportunizado por meio de uma bolsa concedida pelo programa Brasília sem Fronteiras.

A estratégia deu certo. Monya Tavares, sócia-diretora e coordenadora do escritório, responsável pelo processo seletivo, conta que, por meio das informações adicionais no currículo de Raquel, foi possível perceber a afinidade da candidata com os valores da empresa. “Ela preenchia todas as competências que procurávamos. Já no currículo visualizávamos que ela tinha uma linha ideológica muito parecida com a do escritório”, relembra. A identificação foi mútua, pois essa foi a primeira empresa em que Raquel sentiu segurança para ir à entrevista de cabelos soltos (ela tem um corte estilo black power). “Eu já trabalhei em instituições com as quais não me identificava ideologicamente, mas, com essa, me senti à vontade para me mostrar como sou. Nos demais processos, quando chegava a hora da entrevista, eu prendia o cabelo com bastante creme ou fazia escova”, comenta Raquel, que percebeu esse caráter da firma por meio das várias fases do processo seletivo, que envolvem análise curricular, provas de texto e conhecimentos específicos e teste psicológico.

“O candidato também precisa conhecer a empresa para ver se é aquilo que ele quer no momento. Não adianta a pessoa se encaixar exatamente no que precisamos e depois ela perceber que não é o que está procurando”, observa Monya. A psicóloga organizacional Angélica Guidoni confirma: se reconhecer na empresa é essencial para o sucesso profissional. “Minha dica é: nunca se programe para caber em uma vaga. A vaga tem que te acolher. Senão, logo vem o desestímulo, a falta de autoestima… Quanto menos a pessoa achar que tem que se encaixar, melhor”, aconselha. O administrador Rodrigoh Henriques acrescenta que o sucesso do profissional depende da identificação com o ambiente. “Tem empresas que oferecem mais ou menos desafios. Tem gente que floresce com falta de recursos e há quem só cresce com recursos sobrando. Não se trata de um julgamento de valor sobre o quão bom você é ou não, mas de colocar a pessoa certa no lugar certo. Em determinada empresa, área e momento, o candidato pode funcionar perfeitamente. Ou não”, declara.

Eu , empregador

Dono de uma empresa de design, Thiago Ramiro, 31, acredita que o currículo é “apenas uma ferramenta básica e inicial” na hora de contratar — afinal, há muito mais a ser levado em conta, como a própria entrevista. Mas é possível usá-la como chance de se destacar, demonstrando habilidades e resultados alcançados de modo atrativo. “O currículo sempre vai ser pouco, mas é preciso aproveitar a oportunidade de mostrar quem você é e por que se conecta com aquela empresa. Use o espaço a seu favor e faça mais do que uma linha do tempo para mostrar seus feitos”, recomenda o sócio-fundador da ONI Branding & Design. Durante seleções, o designer procura profissionais alinhados à proposta da empresa e dispostos a contribuir com a missão de posicionar marcas de forma relevante no mercado. E o currículo pode ser o primeiro indício de que alguém se encaixa ali. Nesse sentido, tanto forma quanto conteúdo importam, já que o brasiliense valoriza habilidades comportamentais e técnicas, que podem ser apresentadas no documento. Chamam a atenção dele perfis de pessoas multidisciplinares e conectadas.

“Temos o caso de uma pessoa que contratamos e, depois, se tornou sócia da empresa, justamente pelo traço comportamental que apresentou no processo seletivo. Enquanto outros candidatos mandaram portfólios com muito conteúdo, ela enviou um arquivo que dizia que os projetos memoráveis ainda estavam por vir e seriam feitos na nossa empresa, mostrando que tinha vontade de fazer parte disso aqui. Essa designer foi protagonista e ousada e isso passou uma mensagem muito mais forte do que o projeto gráfico do currículo”, relata. Só o documento, porém, é claro, não basta. “Muitas vezes, um bom currículo não reflete um bom profissional. Hoje se contrata muito pelo técnico e demite-se pelo comportamental. E se já na entrada começamos a analisar o aspecto atitudinal?”, indaga. É por isso que, nos processos seletivos da empresa, o gestor pede, além de currículo, envio de portfólio e de um relato em vídeo. Tudo isso para criar filtros extras que ajudam a perceber se o candidato tem características compatíveis com as da empresa, o que Thiago chama de “match cultural e comportamental”.

Palavra de especialista

O comportamental importa
Quer saber como demonstrar habilidades comportamentais no currículo sem parecer vaidoso? Não adianta fazer propaganda, designando adjetivos e características a si (como “trabalho bem em equipe, sou organizado e responsável”). É mais interessante mostrar o impacto dessas competências. Esse é um novo conceito de carreira que analisamos muito no currículo. Se a pessoa se descreve como líder, o que ela conseguiu provocar nas pessoas ao seu redor com essa qualidade? Quantas pessoas se desenvolveram a partir do trabalho desse profissional? Quando um candidato mostra que modificou as áreas de atuação dele e que as funções foram ganhando complexidade, isso comprova que o profissional tem habilidades importantes para o ambiente de trabalho.
Angélica Guidoni, sócia da Trajeto RH, psicóloga, pós-graduada em antroposofia, consultoria empresarial e coaching

Não minta!

Tem gente que ainda insiste em colocar informações inverídicas no currículo. Pesquisa da consultoria de recrutamento Robert Half revelou que 75% dos diretores excluíram candidatos de um processo seletivo após detectarem dados supervalorizados ou omitidos nos currículos (confira no quadro ao lado as informações que costumam ser mais maquiadas). De acordo com Leonardo Berto, gerente de Negócios da Robert Half, nem sempre o candidato tem a intenção descarada de mentir. Outras vezes, falta à pessoa fazer uma autoavaliação. “Quando se declarar fluente em um idioma, por exemplo, pergunte-se: ‘estou preparado para uma entrevista em inglês?’ Caso não esteja, você provavelmente não tem fluência.”

Apresentar resultados conquistados pode contar pontos, mas é preciso ter cuidado para não omitir a participação de outras pessoas, como observa Rodrigoh Henrique. “Não tente, por omissão, fingir que todo o mérito é seu. É moralmente incorreto e você pode ser descartado”, conclui.