Entrevista de Renata Filippi, Diretora Geral de Executive Search da STATO, para a Revista Repense:

Por Danielle Mendonça

Desde que os seres humanos surgiram na Terra, ou seja, há pelo menos 400 mil anos, eles já se reuniam para caçar, para se protegerem do frio, enfim, por motivos diferentes dos de hoje, é verdade. O fato é que reunir-se é uma necessidade inerente à condição humana. Dos papos ao redor da fogueira das tribos indígenas às reuniões conectadas por tecnologias, que possibilitam ter profissionais do mundo inteiro em uma sala sem que eles precisem sair de suas mesas, no país onde vivem, o que podemos concluir é que as pessoas sempre buscaram no outro o complemento dos seus pensamentos para construir algo maior e melhor. É por meio de conversas de grupos acerca de um assunto comum que novas ideias surgiram, que conseguimos criar meios que garantam mais agilidade e segurança para facilitar o nosso dia a dia. De lá para cá, muitas mudanças aconteceram no mundo em todos os aspectos. Por meio de tecnologias que foram evoluindo ao longo dos anos, rompemos obstáculos como a distância. Mas a promessa de que teríamos mais tempo à medida que conseguíssemos ferramentas mais ágeis não se concretizou ainda. Ao contrário disso, estamos cada vez mais com a sensação de que o tempo está se esgotando mais rápido, o que concede a ele um valor imensurável. Com um mercado mais competitivo, estar à frente pode ser decisivo para o sucesso dos negócios. Para isso, os profissionais precisam unir forças com outros departamentos a fim de garantir mais rapidez aos processos e mais qualidade aos resultados. Sabe o que isso significa? Que as reuniões estão tomando muito tempo destes profissionais (ou todo o tempo). Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pela empresa Bain & Company revelou que, das 40 horas de trabalho semanal de um gerente, em média 21 horas são gastas em reuniões. A pergunta é: como sobreviver à tantas reuniões?

AVANCE UMA CASA
O tempo é um item tão valioso e perseguido hoje que tem se tornado uma exigência nas descrições das vagas de emprego. “É preciso saber administrar muito bem o tempo, principalmente ser capaz de estabelecer o que é urgente, o que é importante, quais serão as prioridades, o que será delegado à equipe, entre tantas outras ações que fazem parte das tomadas de decisões no dia a dia”, explica Renata Filippi, diretora-geral de Executive Search da STATO, consultoria de movimentação de talentos. Com isso, surge uma outra questão: como definir o que é prioridade em meio a tantas demandas importantes e cobranças por entregas? A consultora Vânia Ferrari inicia a explicação dizendo que prioridade não existe no plural. “Prioridade é uma e precisa estar alinhada com a missão, visão e valores da empresa. Você até pode fazer uma lista de coisas para fazer no dia, na semana e no mês, mas precisa começar e acabar uma de cada vez”, reforça. Então, se você está hoje diante de uma lista interminável de demandas para entregar e ainda tem uma reunião atrás da outra, a resposta é: não há fórmulas. De acordo com Vânia, para definir qual o melhor formato para cada assunto, ou seja, se é uma reunião, um e-mail, um bate-papo rápido com os envolvidos no projeto, é preciso haver protagonismo. “Se você foi convidado para uma reunião e já sabe que consegue atuar da sua mesa, puxe o telefone do gancho e resolva. Se sabe que precisa unir dois ou três para resolver, chame para um papo rápido e, novamente, faça acontecer. A solução está em cada profissional assumir a responsabilidade de diminuir reuniões e aumentar a produtividade”. Sheila Moura, gerente-geral de Multibenefícios, explica que segue alguns caminhos para fazer o tempo render. Um deles é fazer uma reunião semanal de equipe para listar o que foi feito, o que ainda está pendente e entender os porquês de determinada atividade não ter sido concluída, pois, às vezes, basta o envio de um e-mail ou um telefonema para a pessoa certa para o fluxo seguir e a demanda sair da lista de atividades. Além disso, a executiva conta que o diálogo com a equipe é muito importante para solucionar questões que acontecem no dia a dia e dar mais velocidade aos processos sem perder qualidade. “Tudo começa com o alinhamento com a liderança para definir qual é a prioridade e negociar prazos para entrega das outras demandas. Assim, você garante que está orientado para seguir na direção certa e atingir os objetivos da companhia. O líder consegue ser mais estratégico porque sabe onde é preciso chegar”, explica. Ela menciona outro ponto importante que é delegar tarefas. “Aprender a delegar é uma questão essencial para os líderes, porque se você for para todas as reuniões, além de reduzir a sua produtividade, esse comportamento centralizador ainda pode trazer problemas para o time, pois os profissionais precisam se sentir empoderados, com autonomia para fazer acontecer”, alerta.

PRODUTIVIDADE: VOLTE DUAS CASAS
Comparando o Brasil com outros países no critério produtividade, os dados são preocupantes. Estamos no ranking de empresas mais improdutivas do mundo. A culpa não é somente do tempo que passamos em reuniões. Procrastinação, burocracia, hierarquia e uso incorreto das redes sociais são alguns dos fatores que contribuem para figurarmos em uma posição tão ruim. Vamos aos números que comprovam esse cenário. O estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas e encomendado pelo jornal O Globo mostra que um empregado brasileiro gera, em média, US$ 16,80 (aproximadamente R$ 54,00) por hora trabalhada, o que o coloca na 50ª posição em uma lista que inclui 68 países. De acordo com a consultora Vânia Ferrari, esse é um problema que acontece no mundo todo. Tanto é verdade que, a Alemanha, país modelo em produtividade, figura em 5º lugar no ranking. Lá, os empregados são quase quatro vezes mais produtivos do que os brasileiros – produzem US$ 64,40 por hora e trabalham, em média, 340 horas menos por ano do que o trabalhador no Brasil. A conclusão está clara: a produtividade não tem relação com mais tempo de jornada de trabalho. Inclusive, neste aspecto, Vânia é enfática quando diz que aumentar as jornadas só compromete o resultado e espanta os talentos da empresa. “Um líder inteligente sabe que colaboradores eficientes são aqueles que equilibram vida pessoal com a vida profissional. Não adianta esfolar o funcionário achando que ele será produtivo. Isso é uma falácia, além de comprometer a inovação, o engajamento e a qualidade do trabalho. Hora extra é uma bomba-relógio. O que é preciso mesmo é saber escolher quais projetos e atividades vão trazer o resultado que a empresa busca. E ter coragem para jogar o resto fora, o que significa não fazer tarefas burras e burocráticas”, alerta. A reflexão sobre o que ela diz é muito importante, especialmente se você está mirando novas oportunidades no mercado de trabalho. Isso porque a diretora-geral de Executive Search da STATO, Renata Filippi, conta que investiga como os candidatos gerenciam o seu tempo, quais atividades fazem parte da sua rotina, como é o dia a dia com a família, como o tempo é administrado dentro do trabalho, dentre outras informações. “Cada vez mais as empresas querem proporcionar aos profissionais o chamado work life balance. As companhias não querem mais ser rotuladas por só cobrarem metas e resultados. Proporcionar esse equilíbrio entre a vida pessoal e profissional tem sido uma tendência no mundo corporativo. As organizações veem com bons olhos os profissionais que cuidam da saúde, que fazem esporte, que têm um hobby”, revela Renata.
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